23 março 2012

"Nunca pretendi ser senão um sonhador. A quem me falou de viver nunca prestei atenção. Pertenci sempre ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser. Tudo o que não é meu, por baixo que seja, teve sempre poesia para mim. Nunca amei senão coisa alguma. Nunca desejei senão o que nem podia imaginar. À vida nunca pedi senão que passasse por mim sem que eu a sentisse. Do amor apenas exigi que nunca deixasse de ser um sonho longínquo. (...)

A minha mania de criar um mundo falso acompanha-me ainda, e só na minha morte me abandonará. (...)

Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!"

Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego, p. 121 (ed. Companhia das Letras).