23 março 2012

"Nunca pretendi ser senão um sonhador. A quem me falou de viver nunca prestei atenção. Pertenci sempre ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser. Tudo o que não é meu, por baixo que seja, teve sempre poesia para mim. Nunca amei senão coisa alguma. Nunca desejei senão o que nem podia imaginar. À vida nunca pedi senão que passasse por mim sem que eu a sentisse. Do amor apenas exigi que nunca deixasse de ser um sonho longínquo. (...)

A minha mania de criar um mundo falso acompanha-me ainda, e só na minha morte me abandonará. (...)

Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!"

Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego, p. 121 (ed. Companhia das Letras).
"Saudades ficam violentas quando mudamos de endereço. Saudades ficam insuportáveis quando mudamos de sentido. Você confunde sacrifício com covardia. Compreendo. Eu confundo amor com loucura. (...) O que me atormenta é que sou capaz de amar sua covardia. Foi o que restou de você em mim."

Fabrício Carpinejar, in Canalha!, p. 132-3 (ed. Bertrand Brasil).

22 março 2012

"Do lado de cá, eu não cabia mais. Do outro lado não havia espaço. Encruzilhada onde todos os caminhos me pesavam sob os pés amarrados, impossível seguir, parar era somar o irrecuperável atraso. Os pés sempre pesados. Eu não sabia dançar."

Helena Parente Cunha, in Mulher no Espelho, p. 45 (Art Editora).

25 fevereiro 2012

"Mas os sonhos das mulheres são em geral diferentes dos desejos que rugem dentro delas. Uma espécie de biombo contra a brutalidade que querem, porque ainda são animais. Como nós. Os romances têm princípio, meio e fim, regulação de tempo e temperatura. Fazem dos sentimentos pautas instrumentais convergindo para um concerto de orquestra. Eu não tenho sentimentos desses, que se possam dedilhar, analisar, apreciar e aplaudir. Tenho uma massa suja de nervos e sangue que me serve muito bem. Às vezes dói, às vezes dança. Uma caixa negra que será enterrada comigo, sem chatear ninguém."

Inês Pedrosa, in Os Íntimos, p. 14 (ed. Alfaguara).

23 fevereiro 2012

“Mas onde há o perigo, ali cresce também o que salva.”

Friedrich Hölderlin, Patmos.
"Tremia de desespero porque estava vazia. Essa mesma curetagem exaustiva a que os cirurgiões às vezes submetem o útero doente de certas mulheres, Nancy parecia ter sofrido não no corpo, cuja vitalidade, embora muito deliberada, não deixava de ser genuína, mas na alma (...).

Então passou a tremer também de desejo.
Só há um espetáculo mais penoso que o do amor contrariado: o do desejo não correspondido. Porque no amor nadam tanto aquele que ama quanto aquele que não ama, mas aquele que não deseja - aquele que não deseja está fora do desejo, e não há nada que possa restituí-lo ao mundo do qual se excluiu. O não daquele que não deseja é absoluto, não tem retorno e transforma aquele que deseja em alguém radicalmente alheio, não diferente, mas heterogêneo: (...) alguém que pertence a outro reino."

Alan Pauls, in O Passado, p. 308-9 (ed. Cosac Naify).

"Quero exprimir a necessidade absoluta de se sentir desejado e o fato de, nessa roda do desejo, ser muito raro que dois desejos se encontrem e se correspondam, o que é uma das grandes tragédias do gênero humano."

Pedro Almodóvar, in Conversas com Almodóvar (entrevista a Frederic Strauss), p. 91 (ed. Zahar).

"Irrita-me a felicidade de todos estes homens que não sabem que são infelizes."

Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego, p. 294 (ed. Companhia das Letras)


20 janeiro 2012

"O que esperei dos homens
foram ganas
de mais desespero."

Fabrício Carpinejar, in Cinco Marias, p. 88 (ed. Bertrand Brasil).
"O teu cheiro surpreendeu-me pela delicadeza e pela névoa erótica. Encostei o meu braço ao teu e comecei a transpirar. Sentia uma vontade violenta de me desmoronar em ti. Não, não era fazer amor. Fazer amor não existe, porra, o amor não se faz. O amor desaba sobre nós, já feito, não o controlamos - por isso o sistema se cansa tanto a substituí-lo pelo sexo, coisa gráfica, aparentemente moldável. Também não era foder, fornicar, copular - essas palavras violentas com que tentamos rebentar o amor. Como se fosse possível. Como se o amor não fosse exatamente essa fornicação metafísica que não nos diz respeito - sofremos-lhe apenas os estilhaços, que nos roubam vida e vontade. Eu queria oferecer-te o meu corpo para que o absorvesses no teu. Para que me fizesses desaparecer nos teus ossos."

Inês Pedrosa, in Fazes-me falta, p. 107-8 (ed. Alfaguara).